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O arquipélago da Madeira é conhecido pelas suas maravilhosas paisagens e pelo seu excelente e moderado clima. É do conhecimento geral que, excepcionalmente, tem sido varrido por grandes chuvadas, que em virtude da desertificação de algumas serras, e sobretudo pela extrema inclinação das encostas têm causado grande pânico, destruição e perdas de vida.

As enxurradas (torrentes de água formada pelas chuvas torrenciais), quando acompanhadas de derrocadas ao fazerem barragem às anteriores nos cursos de água (ribeiros e ribeiras), determinam a subida do nível freático, que ao entrarem em rotura ou em colapso, transformam-se num fluxo aquoso detrítico em movimento de dimensões consideráveis.

Este fluxo fluxo, aliado ao declive acentuado da orografia da Ilha da Madeira (declives entre 30 a 40%, a montante e 04 a 10% a jusante), atinge velocidade e energia tal que transborda dos leitos, inunda e deposita nas cotas mais baixas o material detrítico transportado, caracterizando-se num aluvião.

Os aluviões são pouco frequentes, mas são, os desastres naturais que mais têm feito vítimas humanas e danos materiais na Madeira, desde a sua descoberta e povoamento.

Citam-se os principais desastres naturais que ocorreram na Madeira de origem meteorológica, hidrometeorológica, designadamente, as enxurradas ou aluviões, derrocadas ou quebradas.

 

1611: Os autores do Elucidário Madeirense sem precisar dia e mês, referem que, "colhemos notícia, num antigo manuscrito, que no ano de 1611 houve uma grande enchente no Funchal, que entre os notáveis estragos que casou, se conta o de ter destruída em grande parte a igreja paroquial da freguesia de Santa Maria Maior que então ficava na rua que hoje tem o nome de Hospital Velho. Procedeu-se depois à construção duma nova igreja nas imediações do actual fontanário chamado do Calhau, e que foi arrastada para o mar pela aluvião de 1803" . (Elucidário Madeirense)

1689: No Arco de São Jorge, deu-se uma "grande quebrada (...) desagregando-se muitos terrenos, principalmente do arco Pequeno, que deram lugar à formação daquele sítio", e nome ao lugar, sítio da Quebrada. O "caso é vulgar na Madeira, e a freguesia do Jardim do Mar, uma parte do Paul e o sítio do Lugar de Baixo e ainda outros, formaram-se de maneira idêntica a esta", segundo aos autores do Elucidário. Na quebrada do Arco de S. Jorge "deu-se, porém, uma circunstância muito singular, que merece menção especial e à qual temos encontrado várias referência", onde "várias casas de habitação serem arrastadas a distâncias relativamente grandes sem ficarem arruinadas." (Elucidário Madeirense).

1707: Idem. "Também existe notícia doutro aluvião que se deu no ano de 1707 e que causou consideráveis prejuízos em toda a ilha." (Elucidário Madeirense).

1724: 18 de Novembro. "Os estragos deste aluvião fizeram-se principalmente sentir na freguesia de Machico, morrendo ali 26 pessoas e abatendo-se mais de 80 habitações. No "Anno Histórico", referindo-se o Padre Francisco de santa Maria ao aluvião de 1974, diz que `padeceu a ilha da Madeira uma tormenta e dilúvio tão grande, que destruiu a vila de Machico, parte de Santa Cruz e muitos outros lugares e sítios da mesma ilha, e também a cidade do Funchal experimentou grande dano e muitas ruínas, assim nas suas muralhas como na povoação, com a enchente da Ribeira do Pinheiro (Santa Luzia)´ que a divide", (Elucidário Madeirense).

1965: 18 de Novembro. "Em virtude das grandes chuvas, cresceram muito neste dia as ribeiras que atravessam o Funchal, sendo destruída a Ponte da praça e sofrendo bastante outras pontes da cidade. As águas da Ribeira da Praça ou de João Gomes arrastaram para o mar o inglês Moita ('), o qual nunca mais apareceu", (Elucidário Madeirense).

1772: Paulo Dias de Almeida, na sua "Descrição da Ilha da Madeira da Madeira de 1817/1827", refere neste ano, sem precisar o dia e o mês que na "Povoação e vila de Santa Cruz" (...), "tinha havido outra cheia que levou a igreja de São Pedro e arruinou muitas casas." (Elucidário Madeirense).

1786: Os autores do Elucidário Madeirense sem precisar dia e mê, referem que, "grandes chuvas e um violento vendaval, que causou muitos prejuízos." (Elucidário Madeirense).

1803: 09 de Outubro. Nesta data, caiu sobre o Funchal, assim como por toda a Madeira, uma grande quantidade de precipitação, que provocou o mais horrível aluvião da história das ilhas deste arquipélago do Atlântico Norte. Segundo os cronistas desta época, só na parte baixa da cidade terão morrido 200 pessoas, calculando-se um total de 600 mortes em toda a madeira (Carita, 1982). A principal causa dos males produzidos pelo aluvião foi a falta de encanamento das ribeiras. Embora tardiamente, resolveu o governo da metrópole realizar esse tão desejado melhoramento, enviando à Madeira o brigadeiro Reinaldo Oudinot encarregado de dirigir os respectivos trabalhos e que aqui chegou a 19 de Fevereiro de 1804. (Elucidário Madeirense).

1815: 26 de Outubro. "Depois do grande aluvião de 9 de Outubro de 1803 foi talvez a maior que tem assolado esta ilha. Numa representação que, sobre os estragos causados por esta inundação de 26 de Outubro de 1815, dirigiu a Câmara Municipal do Funchal ao Príncipe Regente D. João, se afirma que esta foi incomparavelmente maior do que o aluvião de 1803, mas, nem pelo número de vítimas nem pelos prejuízos que causou, atingiu as proporções da outra, apesar de enormes perdas que acarretou aos habitantes do Funchal.

Como em outras ocasiões aconteceu, foram as correntes impetuosas das ribeiras que ocasionaram os maiores prejuízos. Especialmente nalguns pontos das margens das ribeiras que não tinham muralhas a ampararem e dirigirem o curso da águas, saíram estas fora do seu leito, galgaram os terrenos marginais e abriram novo caminho, através das ruas e casas, causando não só incalculáveis estragos, como produzindo o maior pânico entre os habitantes, alguns dos quais foram vítimas do ímpeto indomável da corrente. Foi o que aconteceu com as águas da ribeira de S. João que, procurando novo percurso, arrastaram na sua violência cerca de vinte casas desde a ponte de S. Paulo, ao fim da rua da Carreira, até à foz da mesma ribeira. Nas ruas marginais da ribeira de Santa Luzia, também foram grandes os estragos, ficando danificadas algumas casas e em alguns pontos as muralhas da mesma ribeira. Por toda a ilha houve prejuízos consideráveis e morreram várias pessoas, arrastadas pela violência das correntes. (Elucidário Madeirense).

1848: 17, 18, 19 e 20 de Novembro. "Houve nestes dias grandes inundações, principalmente no concelho de Santana, sendo arrastadas pelas águas muitas benfeitorias produtivas e importantes. No Funchal as águas das ribeiras correram com violência, mas, apesar de copiosíssimas, não produziram estragos sensíveis", (Elucidário Madeirense).

1856: 05 e 06 de Janeiro. "Em virtude de chuvas abundantíssimas no Funchal, troxe a corrente da Ribeira de João Gomes muito entulho que sobrepujou os mainéis entre a foz e o Campo da Barca. Não podendo as águas correr livremente, foram inundar a R. de Santa Maria, as travessas que a cortam, a R. do Ribeirinho de Baixo e o largo do Pelourinho, fazendo em todos esses pontos grandes destroços. A Ribeira de Santa Luzia não causou prejuízos, embora ficasse também entulhada, mas a de S. João fez não pequenos estragos, principalmente nas proximidades da capela. Na Ribeira Brava, na Tabua, na Serra de Água, na Ponta do Sol, no Paul do Mar e noutras localidades houve também grandes devastações produzidas pelas águas", (Elucidário Madeirense).

1876: 01 de Janeiro. "Grandes temporais, que arremessam alguns navios à praia do Funchal. Houve inundações neste dia que só causaram prejuízos notáveis na freguesia da madalena do Mar". (Elucidário Madeirense).

1895: 02 e 03 de Outubro. "Um aluvião deu-se nestes dois dias e produziu grandes estragos nas freguesias de S. Vicente, Faial, Ponta delgada, Boa Ventura e Seixal. Nesta última freguesia morreu o proprietário Manoel Inisio da Costa Lira. As ribeiras do Funchal trouxeram muita água", (Elucidário Madeirense).

1901: 08 e 09 de Novembro. "As chuvas abundantíssimas que nestes dois dias caíram no Funchal, inundaram as ruas e caminhos, danificaram muitos destes e provocaram alguns desmoronamentos, principalmente na Levada de Santa Luzia", (Elucidário Madeirense).

1920: 25 e 26 de Fevereiro. "Nestes dois dias fez sentir um violento temporal de vento e chuva que causou inumeros prejuizos em toda a ilha. As ribeiras que atravessam a cidade, embora trouxessem muita água, não chegaram a transbordar, mas houve inundações em vários sítios, devido à abundância das chuvas e aos ribeiros da Nora, do Til e dos Louros terem ficado obstruídos. No bairro de Santa Maria chegaram a andar barcos nas ruas para conduzir pessoas de uns para outros pontos, e diz que em toda a ilha ficaram mais de 500 pessoas sem abrigo, sendo incalculáveis os destroços causados pelo vento N: W. no arvoredo, nos canaviaias e em muitas outras culturas.

No caminho do Lazareto morreu um individuo que se dirigia de noite para sua casa e no molhe da Pontinha morreu um outro que trabalhava no Cabrestante, sendo tal a impetuosidade do vento no dia 25 e parte do dia 26, que era perigoso transitar mesmo nas ruas da cidade. No dia 25, de tarde, foi suspenso, por causa do vento, o serviço de automóveis no Funchal. A vila da Ribeira Brava correu grande risco de ser destruída pelas águas, tendo saído a imagem de S. Bento em procissão e havendo depois preces na igreja paroquial. Em Machico, Santa Cruz, S. Vicente e Camacha registaram-se importantíssimos prejuízos, morrendo uma mulher e uma criança nesta ultima freguesia. Desapareceram, com os respectivos tripulantes, alguns barcos de pesca de Câmara de Lobos, e o barco Arriaga, do Porto Santo, que conduzia 16 passageiros, foi impedido para o sul pelo temporal, sendo encontrado pelo vapor inglês Andorinha, que tomou os passageiros, arribando o barco às Selvagens". (Elucidário Madeirense)

28 de Fevereiro. "Voltou a chover torrencialmente neste dia." (Elucidário Madeirense).

02 de Março. "Soprou de novo com grande violência o vento N. W., havendo fortes aguaceiros, que duraram até à madrugada do dia 3 de Março (Elucidário Madeirense),

1921: 05 e 06 de Março. "Caíram nestes dias abundantes chuvas acompanhadas de trovoada, em toda a ilha, havendo inundações e estragos em Machico, Ribeira Brava. Em Machico as águas subiram nalguns pontos quase ao primeiro andar das casas, e na Ribeira Brava morreram quatro crianças sendo três em virtude do desmoronamento dum prédio e uma arrastada pelas águas", (Elucidário Madeirense).

1939: 30 de Dezembro. "O caudal da ribeira, com as grandes invernias que então caíram tomase as mais assustadoras proporções e arrastasse na sua passagem algumas dezenas de habitações. desse a morte a várias pessoas e causasse incalculáveis prejuízos, constituindo uma das maiores calamidades provocadas pelas inundações nesta ilha".

Morreram 4 pessoas e foram destruídas 40 casas na Madalena do Mar", (Elucidário Madeirense).

1956: 05 e 06 03 de Novembro. "Aluvião duma tromba de água que atingiu devastadoramente as freguesias de Machico, Santa Cruz, Porto da Cruz, Água de Pena e santo da Serra, segundo a ordem de sua maior intensidade, causando prejuízos incalculáveis em prédios urbanos e rústicos, destruição de pontes e estradas, arrasamento de campos de cultura, morte de pessoas e gado com a proporção e violência dum verdadeiro cataclismo.

Mais uma vez foi atingida pela cheia da Ribeira, que a margina, a capela do Senhor dos Milagres, construída primitivamente pela Ordem Militar de Cristo, no local onde se celebrou a primeira Missa da descoberta da ilha (...). Situa-se esta capela na Banda d´Além, a leste da Vila de Machico, bairro de pescadores, que sofreu o mais violento embate da corrente, arruinando algumas habitações", (Ilhas de Zargo).

"O Chefe do Distrito solicitou ao senhor Governador Militar, Brigadeiro Gervásio Campos de Carvalho, a colaboração de tropas de guarnição desta ilha nos trabalhos de remoção de terras e pedregulhos arrastados pela enxurrada - no que foi pronta e eficazmente tendido."

"As freguesias do Porto da Cruz, Machico, santa Cruz, água de pena e Santa Cruz foram (...) teatro de uma horrível tragédia. Repetiram-se ali, os aluviões de 9 de Outubro de 1803 e 24 de Outubro de 1842". (Diário de Notícias, Funchal, 04 de Novembro de 1956).

1970: 09 de Janeiro. "Em consequência de mau tempo de sudoeste, o mais chuvoso e catastrófico de terra e de mar, na Madeira, alargou de chuvas torrenciais, durante três semanas, a parte sul da ilha. A ribeira que atravessa todo o Concelho da Ribeira Brava, cujo nome provém das violentas e tradicionais cheias daquele curso de água, transbordou das margens, na data referida, em quantidade de aluvião, assolando campos, destruindo culturas, derrubando casas, submergindo estradas, causando mortes. Na vila da Ribeira Brava destruiu o miradouro e a rua marginal, causou duas vítimas; na Serra d´Água as enxurradas destruíram moradias e cortes de gado, vitimaram quatro pessoas e animais. Um autocarro turístico cheio de estrangeiros foi surpreendido entre as duas freguesias, ficando bloqueado na estrada Marginal por efeito de dois enormes rombos naquela via, o mesmo sucedendo a um carro ligeiro com ocupantes alemães. (Ilhas de Zargo).

10 de Janeiro. "Caiu 42 mm de precipitação nas 24 horas: 4 mortos e 4 feridos na Ilha e elevados prejuízos materiais na Ribeira Brava e serra d´Água", (Adenda às Ilhas de Zargo).

08 de Março. "Uma tromba de água flagelou o Porto Santo durante 11 horas. Dois mortos", (Adenda às Ilhas Zargo).

1979: 07 de Janeiro. "Forte temporal provocou milhares de contos de prejuízo na Região. O mau tempo durou até ao dia 23 de Janeiro, originando 9 mortos na Fajão do Penedo", (Adenda às Ilhas de Zargo).

1982: 07 de Fevereiro. "Violento temporal no litoral da madeira", (Adenda às Ilhas de Zargo).

1984: 01 de Março. "Um forte temporal provocou devastações e elevados prejuízos na ilha. A ponte do Faial foi destruída", (Adenda às Ilhas de Zargo).

1985: 07 de Fevereiro. "O mar invadiu a Ribeira Brava provocando avultados prejuízos e partindo o cais a meio", (Adenda às Ilhas de Zargo).

1993: 29 de Outubro. Um aluvião, considerado um dos mais violentos que atingiu a Madeira afectou a cidade do Funchal em particular, que ficou irreconhecível, confusa e acordou com o balanço de 5 mortos e 4 desaparecidos e cerca de 400 desalojados, e com elevados prejuízos em infra-estruturas públicas e instalações do sector privado. O total de prejuízos ascendeu a quase seis milhões e meio de contos.

2010: 20 de Fevereiro. Na manhã do dia 20 de Fevereiro de 2010 um violento temporal (aluvião) abateu-se sobre a Ilha da Madeira. Nas estações Funchal-Observatório e Pico do Areeiro foram registados respectivamente 58,3 mm (entre as 09:00 e as 10:00) e 105 mm (entre as 10: e as 11:30).

Esta precipitação excepcional produziu um enorme caudal nas ribeiras, cujos leitos não os conseguiram reter. A forte concentração de água nas zonas altas provocou, entre outros factores, diversos deslizamentos de terras e os fortes caudais nas linhas de água arrastaram grandes volumes de inertes e outros materiais, deixando um rasto de destruição nas infra-estruturas e bens. As águas transpuseram as margens destruindo tudo o que encontraram pela frente, provocando derrocadas, arrastando casas, carros e pessoas. semeando o pânico, a morte e o desespero.

Esta tempestade deixou na ilha elevados valores de precipitação num curto espaço de tempo, tendo provocado 42 mortos, 6 desaparecidos, 120 feridos e cerca de 900 desalojados, além de avultados danos materiais nos concelhos do Funchal, Ribeira Brava, Câmara de Lobos e Santa Cruz.

Não há memória recente de uma tragédia com esta dimensão na Ilha da Madeira.

 

 

Bibliografia: Regimento de Guarnição Nº3 (2010) Madeira, 20Fev10: A Dimensão. Grafimadeira. Funchal.

 

 

 

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